Tem um número que dimensiona exatamente quanto de dinheiro sua empresa precisa ter parado só para conseguir operar, antes de pensar em lucro ou em investimento. Esse número se chama necessidade de capital de giro, ou NCG. Quase nenhum dono calcula. E é justamente a NCG mal dimensionada que faz empresa lucrativa viver apertada de caixa — ou pior, faz empresa que está crescendo rápido quebrar no auge das vendas.
O que é, em linguagem de dono
Toda operação tem um descompasso de tempo entre o dinheiro que sai e o dinheiro que entra. Você compra estoque e paga o fornecedor. Esse estoque fica parado um tempo até ser vendido. Quando vende, muitas vezes vende a prazo, então ainda espera mais um tempo até o cliente pagar. Durante todo esse intervalo — do momento em que você desembolsou até o momento em que o dinheiro voltou —, a operação precisa ser bancada por algum recurso. Esse recurso é o capital de giro, e a quantidade dele que a operação exige é a NCG.
Em termos simples: a NCG é o dinheiro que fica “preso” na operação. Preso em estoque que ainda não virou venda. Preso em contas a receber de clientes que ainda não pagaram. Menos o que os fornecedores estão financiando para você, via prazo de pagamento. Quanto maior o estoque e o prazo que você dá aos clientes, e quanto menor o prazo que os fornecedores te dão, mais dinheiro a operação exige parado.
Por que crescer rápido pode quebrar a empresa
Aqui está o ponto contraintuitivo. Empresa que cresce muito rápido consome caixa, não gera. Parece estranho — mais vendas não deveriam significar mais dinheiro? No curto prazo, não. Mais vendas significam mais estoque para comprar e mais contas a receber para esperar. A NCG cresce junto com o faturamento.
Um exemplo. Sua empresa fatura R$ 500 mil por mês e a operação exige, digamos, R$ 300 mil de capital de giro para rodar. As vendas dobram para R$ 1 milhão por mês. Maravilha, certo? Só que a NCG também tende a dobrar, para cerca de R$ 600 mil. Você precisa de mais R$ 300 mil parados na operação para sustentar o novo nível de vendas — e precisa deles antes de o lucro extra ter aparecido no caixa. Se você não tiver de onde tirar esses R$ 300 mil, o crescimento sufoca a empresa. É o que se chama de overtrading: crescer além do que o capital de giro suporta. A empresa morre de sucesso.
Calcular e, principalmente, financiar do jeito certo
Dimensionar a NCG é o primeiro passo: saber quanto a operação exige hoje e quanto vai exigir no nível de vendas que você está perseguindo. O segundo passo, igualmente importante, é decidir como financiar essa necessidade. E aqui mora um erro caríssimo: financiar capital de giro permanente com dívida de curto prazo.
Capital de giro é uma necessidade que não some — enquanto a empresa operar, ela existe. Financiar algo permanente com cheque especial, antecipação de recebível cara ou empréstimo de 30 dias é trocar um problema de caixa por uma sangria de juros. O custo dessas linhas curtas come a margem e cria um ciclo em que a empresa toma dívida cara para pagar dívida cara. NCG estrutural pede financiamento estrutural: linha de prazo compatível, custo adequado, ou capital próprio dimensionado para o nível de operação.
Há também os caminhos operacionais para reduzir a NCG, e eles muitas vezes valem mais que qualquer empréstimo: negociar prazo maior com fornecedores, girar o estoque mais rápido, encurtar o prazo que você concede aos clientes ou cobrar melhor. Cada dia a menos de dinheiro preso na operação é dinheiro que volta para o caixa sem custo de juros.
Onde a SOWIN entra
Calcular a NCG da sua empresa, projetar como ela se comporta conforme o faturamento cresce e desenhar a forma certa de financiá-la é trabalho de direção financeira — e está no centro do CFO as a Service. Se você já passou pela sensação de vender mais e ver o caixa apertar, a explicação quase sempre está na necessidade de capital de giro que ninguém dimensionou. Vale colocar esse número na mesa antes do próximo salto de vendas.